Taiza Tosatt Eleoterio, psicanalista com atuação voltada ao acolhimento emocional e às relações familiares, integra um campo de conhecimento que há décadas busca compreender um fenômeno que desafia a lógica superficial: por que mulheres permanecem em relacionamentos abusivos? A pergunta, frequentemente feita com estranheza ou julgamento, revela uma lacuna importante na compreensão pública sobre dependência emocional, vínculos afetivos e os mecanismos psicológicos que atuam em situações de violência. Responder a ela exige afastar qualquer simplificação e aproximar-se de uma leitura mais humana, técnica e cuidadosa sobre o que acontece no interior desses relacionamentos.
O peso dos vínculos afetivos e a construção da dependência emocional
A permanência em um relacionamento abusivo raramente decorre de uma escolha consciente e livre. O que se observa, na maior parte dos casos, é um processo gradual de construção de vínculos que vai tornando cada vez mais difícil a separação. Relacionamentos abusivos costumam começar com períodos de afeto intenso, atenção e cuidado, o que cria uma base emocional sólida antes que os comportamentos violentos se manifestem de maneira clara.
A dependência emocional que se desenvolve ao longo desse processo não é fraqueza. É uma resposta adaptativa a um ambiente marcado por instabilidade e alternância entre afeto e agressão. O vínculo formado com o parceiro abusivo pode ser profundamente arraigado, especialmente quando a relação é percebida como a principal ou única fonte de suporte emocional disponível.
Na avaliação de Taiza Tosatt Eleoterio, compreender a dependência emocional requer reconhecer que o afeto construído ao longo do relacionamento é real, mesmo quando a relação é prejudicial. A separação, nesse contexto, não significa apenas encerrar um vínculo ruim, mas abrir mão de algo que, em algum momento, foi percebido como fonte de amor e segurança.
A psicanálise contribui para iluminar esse processo ao mostrar que os vínculos afetivos são formados por camadas complexas de experiências, expectativas e memórias. Romper um relacionamento abusivo, portanto, envolve muito mais do que uma decisão racional. Envolve lidar com a perda de um vínculo que, apesar de doloroso, também carrega traços de pertencimento e familiaridade.
O medo da ruptura e seus desdobramentos concretos
Taiza Tosatt Eleoterio esclarece que, entre os fatores que mantêm mulheres em relacionamentos abusivos, o medo ocupa um lugar central. Trata-se, em muitos casos, de um medo concreto e legítimo: medo de represálias, de perder os filhos, de enfrentar dificuldades financeiras, de não ter para onde ir. O ciclo da violência doméstica, bem documentado na literatura sobre o tema, inclui fases de tensão crescente, explosão, reconciliação e aparente calmaria, o que cria uma dinâmica em que a esperança de mudança é constantemente reativada.
O medo da separação, no entanto, não se restringe ao medo físico. Existe também um medo emocional profundo: o de não conseguir reconstruir a própria vida, de encarar a solidão, de ser julgada por familiares e amigos, ou de não ser acreditada quando decidir contar o que viveu. Esses medos são alimentados, muitas vezes, pelo próprio comportamento do parceiro abusivo, que utiliza ameaças, isolamento e desqualificação sistemática da percepção da parceira para mantê-la presa ao relacionamento.
Conforme apresenta Taiza Tosatt Eleoterio, o isolamento progressivo é um dos elementos mais insidiosos da dinâmica abusiva. À medida que a mulher perde contato com sua rede de apoio, família e amigos, a percepção de que não há saída possível se fortalece. A dependência emocional e o medo se retroalimentam, criando um ciclo que não pode ser interrompido sem suporte externo adequado.
Compreender o medo da ruptura como uma resposta racional a uma situação de risco, e não como sinal de fraqueza ou conivência, é um passo fundamental para que o entorno social trate essas situações com a seriedade e o cuidado que merecem.
Fatores sociais, culturais e históricos que moldam a permanência
A análise das razões pelas quais mulheres permanecem em relacionamentos abusivos não pode ignorar o contexto social e cultural em que essas relações se inserem. Estruturas de gênero profundamente enraizadas contribuem para que a permanência seja, em muitos casos, o caminho de menor resistência social. A ideia de que a mulher deve preservar a família a qualquer custo, que o divórcio representa um fracasso ou que os filhos precisam crescer com o pai presente, independentemente de como ele se comporta, são narrativas que exercem pressão real sobre as decisões de muitas mulheres.
A dependência financeira também não pode ser desconsiderada. Em relacionamentos em que o parceiro controla os recursos econômicos, a saída pode representar uma ameaça concreta à sobrevivência material da mulher e de seus filhos. A ausência de políticas públicas eficazes, de redes de apoio comunitário e de recursos acessíveis para mulheres em situação de violência agrava ainda mais esse cenário.
Sob a perspectiva de Taiza Tosatt Eleoterio, o acolhimento social e comunitário tem papel insubstituível no processo de apoio a mulheres que enfrentam relacionamentos abusivos. A existência de redes de suporte, seja por meio de instituições, seja por meio de vínculos comunitários e familiares fortalecidos, pode fazer diferença significativa na capacidade de uma mulher de identificar sua situação e buscar ajuda.
A história das relações de gênero mostra que a submissão feminina foi, durante séculos, socialmente legitimada e até incentivada. Embora as transformações culturais das últimas décadas tenham avançado significativamente nesse campo, os resquícios dessas estruturas ainda se fazem presentes e continuam a influenciar a forma como as mulheres percebem seus relacionamentos e suas possibilidades de ação.
Desmistificando o ciclo da violência: por que a empatia é fundamental?
Uma das mudanças mais necessárias no modo como a sociedade lida com mulheres em relacionamentos abusivos é a substituição do julgamento pela compreensão. Perguntar: “Por que ela não foi embora?” transfere o foco para a vítima e obscurece a responsabilidade do agressor. A pergunta mais produtiva, tanto do ponto de vista humano quanto do ponto de vista técnico, é: o que a impedia de ir, e como podemos contribuir para que ela tenha as condições necessárias para escolher sua segurança?
O suporte emocional oferecido por pessoas próximas, sem pressão nem julgamento, pode ser um fator decisivo. Reconhecer a complexidade da situação, evitar ultimatos e manter os canais de comunicação abertos são atitudes que, na prática, criam um ambiente mais seguro para que a mulher possa, no seu próprio tempo, identificar sua situação e buscar ajuda.
Conforme detalha Taiza Tosatt Eleoterio, o acompanhamento psicanalítico pode contribuir de maneira significativa para que mulheres em situação de vulnerabilidade emocional desenvolvam maior clareza sobre seus vínculos, seus medos e suas possibilidades. O trabalho clínico nesse contexto não é diretivo, mas acolhedor, e respeita o ritmo de cada pessoa no processo de compreensão e transformação.
A permanência em um relacionamento abusivo não é um sinal de conformismo ou de ausência de desejo de mudança. É, frequentemente, a expressão de um conjunto de forças que atuam em direções opostas: o amor que ainda existe, o medo do que pode acontecer, a ausência de suporte e a esperança de que as coisas melhorem. Reconhecer essa complexidade é o primeiro passo para oferecer apoio que realmente faça diferença.
A importância do respeito à singularidade na ajuda a vítimas de relacionamentos abusivos
A permanência em relacionamentos abusivos é um fenômeno multidimensional que não pode ser reduzido a explicações simples ou a juízos de valor sobre as mulheres que vivem essas situações. Dependência emocional, medo da ruptura, pressões sociais e culturais, isolamento progressivo e ausência de redes de apoio compõem um cenário complexo que exige respostas igualmente complexas. Compreender esses fatores é condição para que a sociedade, as famílias e as instituições possam oferecer suporte mais eficaz, empático e livre de julgamento a mulheres que enfrentam relacionamentos abusivos. Cada trajetória é singular, e o respeito a esse tempo e a essa singularidade é parte essencial de qualquer forma de apoio genuíno.
Autor: Diego Rodríguez Velázquez