O setor de segurança privada no Brasil atravessa uma transformação estrutural que vai muito além da adoção de novas tecnologias, destaca o especialista em segurança institucional e proteção de autoridades, Ernesto Kenji Igarashi. Mudanças regulatórias, novas demandas dos clientes corporativos, o avanço da segurança eletrônica e a crescente integração entre segurança física e segurança da informação estão redesenhando o perfil do setor de forma acelerada e irreversível.
Como a tecnologia está redefinindo os limites da segurança privada no Brasil?
Segundo Ernesto Kenji Igarashi, a integração de câmeras com inteligência artificial, sistemas de reconhecimento facial, monitoramento remoto centralizado e sensores IoT nas instalações representa uma mudança fundamental na forma como a segurança perimetral opera. Tecnologias que até poucos anos atrás eram acessíveis apenas a grandes corporações ou órgãos governamentais tornaram-se progressivamente mais acessíveis financeiramente, levando a uma democratização que está redefinindo as expectativas dos clientes de médio porte. Uma empresa de médio porte hoje tem acesso a recursos de monitoramento que, há dez anos, só estavam disponíveis para empresas com orçamentos de segurança milionários, e isso eleva consideravelmente o padrão de comparação para qualquer prestadora que queira competir nesse mercado.
O monitoramento remoto e as Centrais de Alarme e Monitoramento ampliaram o alcance operacional de empresas de segurança sem necessidade de multiplicação proporcional de equipes físicas. Um centro de monitoramento bem estruturado pode supervisionar dezenas de instalações simultaneamente, respondendo a alertas em tempo real e acionando equipes de intervenção apenas quando necessário. Esse modelo reduz custos operacionais para o cliente, aumenta a velocidade de resposta a incidentes e libera os profissionais em campo para focar nas situações que realmente exigem presença humana. A tendência é que esse modelo continue crescendo, especialmente entre clientes que buscam reduzir o número de postos fixos sem abrir mão da cobertura de segurança.
A cibersegurança emerge como uma fronteira natural de expansão para empresas de segurança privada com visão estratégica. Em um ambiente em que ameaças físicas e digitais frequentemente se combinam em ataques coordenados, a separação entre segurança física e segurança da informação torna-se cada vez mais artificial. Empresas que conseguem oferecer uma abordagem integrada de segurança convergente, cobrindo tanto as ameaças físicas quanto as digitais, têm um diferencial competitivo expressivo em um mercado corporativo que está progressivamente consciente dessa interdependência. Conforme Ernesto Kenji Igarashi, essa integração exige novos perfis profissionais, novos processos e, acima de tudo, uma visão de negócio que transcende os limites tradicionais do setor.
Quais mudanças regulatórias estão moldando o setor e o que esperar dos próximos anos?
A regulação do setor de segurança privada no Brasil é exercida principalmente pela Polícia Federal, por meio da Portaria 3.233/2012 e suas atualizações, que estabelece as normas para credenciamento de empresas, formação e registro de profissionais, porte de armamento e fiscalização das atividades. Esse marco regulatório, embora fundamental para a profissionalização do setor, ainda apresenta lacunas significativas em áreas que cresceram rapidamente nos últimos anos, como a regulação de drones de segurança, de sistemas autônomos de monitoramento e de operações de segurança cibernética realizadas por empresas de segurança privada.

De acordo com Ernesto Kenji Igarashi, a pressão por maior profissionalização é uma tendência regulatória clara. Requisitos mais rigorosos de formação, ampliação das exigências de reciclagem periódica, maior fiscalização das condições de trabalho e remuneração dos vigilantes e endurecimento das penalidades por irregularidades operacionais são movimentos que o setor está observando com atenção. Para empresas sérias que já operam dentro dos padrões exigidos, esse endurecimento representa uma oportunidade de diferenciação frente aos operadores informais e de menor qualidade que ainda encontram espaço em um mercado onde a fiscalização é insuficiente. Para empresas que ainda operam em zonas cinzentas, representa um risco crescente de sanções.
O que os clientes corporativos vão exigir da segurança privada nos próximos cinco anos?
O cliente corporativo de hoje já é significativamente diferente do que era cinco anos atrás, e a tendência é de aceleração nessa transformação. Empresas com maturidade em gestão de riscos não buscam mais apenas guardar patrimônio e controlar acesso: buscam parceiros estratégicos de segurança capazes de compreender o negócio, identificar vulnerabilidades sistêmicas, propor soluções integradas e medir resultados com indicadores precisos. Esse perfil de cliente exige interlocutores que falem a língua do negócio, que participem de reuniões de diretoria com dados e análises relevantes e que entreguem relatórios que vão além do registro de ocorrências para incluir análise de tendências e recomendações preventivas.
A sustentabilidade e a conformidade ESG começam a influenciar as decisões de contratação de segurança em organizações com maior maturidade nessa agenda. Empresas que reportam indicadores ambientais, sociais e de governança estão progressivamente incluindo suas cadeias de fornecedores nesse escrutínio, o que significa que prestadoras de segurança que não atendem a requisitos mínimos de regularidade trabalhista, condições de trabalho adequadas e práticas éticas de negócio podem ser excluídas de processos seletivos de grandes corporações, independentemente de sua competitividade de preço.
Por fim, como expõe Ernesto Kenji Igarashi, a personalização dos serviços é outra exigência crescente que premia empresas com capacidade de diagnóstico e flexibilidade operacional. Clientes que entendem de segurança não querem soluções de prateleira: querem uma operação desenhada para os riscos específicos do seu negócio, no seu setor, na sua localização geográfica. Esse nível de personalização exige investimento em diagnóstico de riscos, em planejamento operacional detalhado e em profissionais com capacidade analítica suficiente para traduzir um ambiente de negócio específico em um modelo de segurança adequado. Empresas que desenvolvem essa capacidade constroem relacionamentos de longo prazo com clientes que pagam mais e rotacionam menos.
Autor: Diego Rodríguez Velázquez