Ceer Motors estreia com um SUV e um sedã a bateria, promete sete modelos até 2030 e não descarta motores a combustão no futuro
Um dos maiores produtores de petróleo do mundo decidiu entrar na indústria automotiva pela porta dos veículos elétricos. O governo saudita criou uma joint venture do Fundo de Investimento Público da Arábia Saudita com a gigante de eletrônicos taiwanesa Foxconn para dar origem à sua primeira montadora, a Ceer Motors, que escolheu para sua estreia dois modelos a bateria, um SUV e um sedã. O anúncio foi publicado pela Agência AutoData na quinta-feira (24). autodata
A iniciativa chama atenção porque combina dois movimentos que vêm redesenhando o setor: a entrada de empresas de tecnologia na fabricação de carros e o esforço de países dependentes do petróleo para diversificar suas economias. Ao mesmo tempo, o projeto traz um recado indireto para o Brasil, já que a parceira taiwanesa sinalizou recentemente interesse em negócios por aqui.
Sete modelos até 2030 e espaço para outras motorizações
Embora a estreia seja totalmente elétrica, a Ceer não pretende ficar restrita a essa tecnologia. O plano é, até 2030, apresentar ao mercado sete modelos, incluindo veículos de porte médio e compacto, e com outras formas de propulsão. Em outras palavras, a montadora mantém a estratégia flexível para responder ao comportamento do consumidor da região. autodata
Essa flexibilidade inclui até mesmo os motores tradicionais. Desde que haja demanda do mercado, não está descartada a possibilidade de produzir carros a combustão no Complexo de Manufatura da Ceer, na Cidade Econômica Rei Abdullah, e, segundo a montadora, a unidade fabril é a maior do Oriente Médio. autodata
Na apresentação da marca, o governo saudita deixou claro o objetivo político e econômico por trás da empreitada. O príncipe Mohammed bin Salman, que acumula os cargos de primeiro-ministro e de presidente do Conselho de Administração do fundo, afirmou que o plano é construir um ecossistema industrial sustentável que contribua para diversificar a economia local, com a intenção de posicionar o país como polo regional e líder no setor automotivo. autodata
Exobot: o que se sabe sobre o SUV e o sedã de estreia
Os dois primeiros modelos formam a linha Exobot. O SUV e o sedã têm design futurista, oferecem alta tecnologia e ganharam a alcunha de First Edition para as primeiras unidades comercializadas. O projeto foi desenvolvido pensando nas condições da região, com foco em resistência térmica diante do calor extremo e das longas viagens comuns no Oriente Médio. AutoData
Por isso, o sistema de climatização ganhou protagonismo. Segundo a Ceer, o sistema de resfriamento Halo Cooling é capaz de reduzir, em dez minutos, a temperatura da cabine de 65ºC para 32ºC. No desempenho, o sedã vai de zero a 100 km/h em 2,6 segundos e o SUV em 2,9 segundos, ambos com velocidade máxima de 210 km/h; a bateria de 112 kWh garante autonomia de até 670 km para o sedã e de até 560 km para o SUV, e a recarga ultrarrápida leva de 10% a 80% em meia hora. AutoDataAutoData
O visual também foge do convencional. Os veículos têm portas de quase 3 metros de comprimento que abrem de uma só vez, formando um arco de 60 cm inspirado no voo do falcão Shahin, e a montadora afirma que seus modelos têm o maior para-brisa já produzido, com 2,4 metros de comprimento e inclinação de 15º. Em dimensões, o sedã mede 5,26 m de comprimento, 2,10 m de largura e 1,43 m de altura. AutoDataAutoData
Metas de empregos, PIB e conteúdo local
Além dos carros, a Ceer chega com metas econômicas ambiciosas. Até 2034, a previsão é que a montadora contribua com US$ 8 bilhões para o PIB da Arábia Saudita, além de injetar US$ 21 bilhões na melhoria da balança comercial e criar 30 mil empregos, sendo 6,5 mil diretos e 23,5 mil indiretos. autodata
Outro ponto central é a nacionalização da produção. O plano é chegar a 45% de conteúdo local, segundo informou o CEO da Ceer, James DeLuca. A meta indica que o país quer atrair fornecedores e formar uma cadeia industrial própria, e não apenas montar veículos com peças importadas. autodata
Na prática, o modelo lembra estratégias adotadas por outros mercados emergentes que usaram incentivos e parcerias para atrair fabricantes. A diferença, neste caso, é que o Estado saudita entra diretamente como sócio, por meio do seu fundo soberano, e escolhe uma empresa de tecnologia em vez de uma montadora tradicional como parceira industrial.
Foxconn amplia presença no setor e já olhou para o Brasil
A escolha da Foxconn não é casual. A empresa tem tradição em fazer parcerias com montadoras que não detêm expertise na produção de veículos elétricos. Conhecida por fabricar eletrônicos para grandes marcas globais, a companhia vem usando esse know-how industrial para ganhar espaço na mobilidade elétrica. autodata
O interesse chega ao mercado brasileiro. A Agência AutoData publicou que a Foxconn está aberta a negociar com empresas no Brasil, informação divulgada durante a apresentação de novidades da marca Foxtron, produzida em Taiwan, em feira realizada em Taipé. Até o momento, não há anúncio de acordo concreto no país. autodata
Para o leitor brasileiro, a estreia da Ceer ajuda a entender como a disputa pelos elétricos deixou de ser exclusiva das montadoras tradicionais. Fabricantes de tecnologia, fundos soberanos e novos países produtores passam a disputar investimentos, fornecedores e mercados, um cenário que tende a influenciar também as decisões de quem pensa em produzir veículos eletrificados na América do Sul.
Fontes: